{"id":6246,"date":"2025-09-26T14:24:41","date_gmt":"2025-09-26T17:24:41","guid":{"rendered":"https:\/\/cupombike.com.br\/mashallah-vivendo-do-artico-a-asia-de-bicicleta\/"},"modified":"2026-05-15T22:12:34","modified_gmt":"2026-05-16T01:12:34","slug":"mashallah-vivendo-do-artico-a-asia-de-bicicleta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cupombike.com.br\/novo\/mashallah-vivendo-do-artico-a-asia-de-bicicleta\/","title":{"rendered":"Mashallah \u2013 \u2018vivendo\u2019 do \u00c1rtico \u00e0 \u00c1sia de bicicleta"},"content":{"rendered":"<div>\n<p><em>\u201cEis aqui o sentido profundo de minha rela\u00e7\u00e3o contigo,<br \/>porque n\u00e3o existe, entre tu e eu, nem eu, nem tu\u201d.<\/em><br \/>Mevlana Jalaluddin Rumi \u2013 poeta sufi persa do S\u00e9c. XIII<\/p>\n<p>Onde mora a necessidade de abandonar-nos para encontrar-nos? De que lugar vem a urg\u00eancia que temos das contempla\u00e7\u00f5es? O que est\u00e1 t\u00e3o delicadamente impl\u00edcito na distin\u00e7\u00e3o entre fuga e busca? Qual a magia transformadora sutilmente escondida no exerc\u00edcio da liberdade<strong><em>? Mashallah \u2013 do \u00c1rtico \u00e0 \u00c1sia de bicicleta<\/em><\/strong>, obra liter\u00e1ria do santista <strong><em>Israel Coifman<\/em><\/strong>, nos faz convites ao questionamento, enquanto nos brinda, generosamente, com um relato pleno de humanidade tecido ao viajar de bicicleta por entre incr\u00edveis emo\u00e7\u00f5es, paisagens, culturas e pessoas.<\/p>\n<p>___________________________<\/p>\n<p>A ousadia, enquanto dose ironicamente diminuta de incompreens\u00e3o da realidade, me daria a chance de dizer, sem medo de equivocar-me, que Israel Coifman \u00e9 um jornalista, documentarista, fot\u00f3grafo e um artista das imagens e das palavras. Enquanto tece seu texto, Isra (como carinhosamente \u00e9 chamado pelos seus afetos) nos sugere revelar que a viagem reside ou habita, primeira e de forma derradeira, dentro do viajante.<\/p>\n<p>\u00c9 nesta constante dualidade entre d\u00favida e certeza que somos colhidos pelo ciclonavegante e levados \u00e0 pr\u00f3xima curva de montanha, a qual n\u00e3o deixa revelar de antem\u00e3o a sequ\u00eancia da ascens\u00e3o ou o despencar para o abismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o, Mashallah \u2013 o livro \u2013 n\u00e3o \u00e9 \u00f3bvio e nem tem a pretens\u00e3o de encerrar nada. Pelo contr\u00e1rio, ele oferece uma oportunidade de perceber ser bem-vinda a ampla abertura \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo isso a fim de que possamos acompanhar e disfrutar, com assombro, desde a hipn\u00f3tica manifesta\u00e7\u00e3o das auroras boreais \u00e0 sens\u00edvel acolhida de um desconhecido viajante de bicicleta no seio de uma fam\u00edlia; da mesma forma, encantar-se com a oportunidade \u00fanica de se ter av\u00f3s ucranianos por um dia, ou at\u00e9 mesmo, viver a irretoc\u00e1vel sensa\u00e7\u00e3o de estar lendo um livro a milhares de quil\u00f4metros distante de onde ele foi vivido, sentido e germinado. E tudo, absolutamente tudo, parece estar t\u00e3o pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Enquanto este cen\u00e1rio toma forma, a emo\u00e7\u00e3o desliza pelo rosto e tinge algumas p\u00e1ginas. O livro de Israel oferece in\u00fameras oportunidades de nos abrirmos \u00e0 emo\u00e7\u00e3o e tingirmos p\u00e1ginas da vida com ele.<\/p>\n<p>Durante os fragmentos de tempo-espa\u00e7o que cabem no giro completo do pedivela ou em uma leitura profunda, o cicloviajante \u00e9 empurrado por gelados ventos e sua ventura o acompanha, surpreendentemente, afinal, <em>mashallah (Deus quis)<\/em>! E aqui, honestamente, n\u00e3o cabe aplaudir a supera\u00e7\u00e3o dos desafios f\u00edsicos, solid\u00e3o, risos e choros do ciclonauta, porque estamos falando de uma grande viagem de bicicleta, n\u00e3o \u00e9 mesmo? O que poder\u00edamos esperar?<\/p>\n<p>Percebo que, enquanto lemos Isra, somos impulsionados a uma delicada rever\u00eancia tanto \u00e0s indom\u00e1veis manifesta\u00e7\u00f5es da natureza quanto \u00e0 maravilha do pertencimento que est\u00e1 guardada nos encontros. Vivemos para encontrar-nos mutuamente. Explico-me.<\/p>\n<p>De forma curiosa, minha sina de escrever sobre as pessoas que amo fez, uma vez mais, sua gra\u00e7a: acesso as primeiras p\u00e1ginas de Mashallah e encontro, prefaciando o livro, as palavras de Juli Hirata \u2013 a quem reconhe\u00e7o como uma <em>for\u00e7a da natureza<\/em> sobre duas rodas. Nos dias em que permane\u00e7o submerso na leitura, ao mesmo tempo que as auroras contam segredos a Israel ao p\u00e9 do ouvido da alma, assisto a mais um v\u00eddeo do Olinto e da Rafaela em seu canal do YouTube. E quem \u00e9 a pessoa citada por eles em um agradecimento pelas dicas dos melhores caminhos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Pamir Highway? Ningu\u00e9m menos do que Israel. Ent\u00e3o, refor\u00e7o, que vivemos para encontrar-nos mutuamente num mundo <em>imensamente pequeno<\/em>.<\/p>\n<p>Enquanto avan\u00e7amos na rica leitura pelos territ\u00f3rios de 19 pa\u00edses, passamos a confirmar que as surpresas que os caminhos nos guardam s\u00e3o como presentes dispostos sobre a trajet\u00f3ria para serem abertos no momento certo. Algumas destas d\u00e1divas nos chegam sob a forma de uma chuva refrescante, uma manh\u00e3 de sol ap\u00f3s uma noite gelada ou por interm\u00e9dio de uma simples e n\u00e3o menos reconfortante x\u00edcara de <em>\u00e7ay<\/em> ou de caf\u00e9. Mashallah!<\/p>\n<p>Mais que tudo, para mim, Mashallah \u2013 o livro \u2013 \u00e9 um relato de experi\u00eancias t\u00e3o sens\u00edveis a ponto de corroborar que, por vezes, <em>o nada<\/em> que uma pessoa tem a nos oferecer \u00e9, possivelmente, <em>o tudo<\/em> que ela tem naquele instante, me ensinou o uzbeque Mohammed. No sil\u00eancio das noites e das infinitudes, Isra, desde t\u00e3o longe nos aproxima da humildade generosa, da gentileza arrebatadora, enfim, daquilo que alguns chamam de filoxenia e eu, recorrentemente, chamo de <em>xenophilus<\/em> \u2013 amor ao estranho.<\/p>\n<p>Ao passo dos cap\u00edtulos de Mashallah \u2013 o livro \u2013 constatamos que aquele super poder que os cicloviajantes t\u00eam de ser invis\u00edveis varia na percep\u00e7\u00e3o de quem tem \u2018olhos de ver\u2019 e contrasta com aquilo que fica na mente e na mem\u00f3ria das pessoas que os percebem, pois elas tamb\u00e9m jamais ser\u00e3o as mesmas. Qui\u00e7\u00e1, em seus pensamentos, resida por algum tempo uma s\u00e9rie de questionamentos que v\u00e3o desde \u2018<em>o que aquele maluco est\u00e1 fazendo de bicicleta por aqui\u2019<\/em>, \u2018<em>ele \u00e9 t\u00e3o pobre que n\u00e3o poderia viajar de carro<\/em>\u2019, ou ainda talvez, \u2018<em>quem ser\u00e1 aquele sujeito? o que ele viu e viveu? a quem ele ama?\u2019<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 certo que, mesmo sem querer, todo cicloviajante vira paisagem e sonho por entre os territ\u00f3rios e cora\u00e7\u00f5es que traspassa. Mashallah \u2013 o livro \u2013 nos atravessa a alma na velocidade da bicicleta, das esta\u00e7\u00f5es, dos sorrisos\u2026 das auroras.<\/p>\n<p>Das in\u00fameras boas coisas que a obra de Isra me fez pensar, est\u00e1 o fato de que nosso gene n\u00f4made (kazak, em turco), DRD4-7R, tem acompanhado a humanidade de uma forma t\u00e3o maravilhosamente especial a ponto de nos permitir ser \u2018<em>uma esp\u00e9cie em viagem<\/em>\u2019, como poetiza Drexler, n\u00e3o \u00e9 mesmo, amada vov\u00f3 Riveca?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, para finalizar meus devaneios, penso que Mashallah \u2013 do \u00c1rtico \u00e0 \u00c1sia de bicicleta \u2013 nos presenteia, tamb\u00e9m, com a ideia de que os caminhos que cruzamos pedalando nos preparam, quil\u00f4metro a quil\u00f4metro, para estarmos prontos a receber em nossa vida improv\u00e1veis amizades que nos transformam em sujeitos ainda melhores, afinal, vivemos para encontrar-nos mutuamente, Insha\u2019Allah!<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"960\" height=\"729\" src=\"https:\/\/revistabicicleta.com\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/mashallah2-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-57327\" srcset=\"https:\/\/revistabicicleta.com\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/mashallah2-1.jpg 960w, https:\/\/revistabicicleta.com\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/mashallah2-1-632x480.jpg 632w, https:\/\/revistabicicleta.com\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/mashallah2-1-768x583.jpg 768w, https:\/\/revistabicicleta.com\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/mashallah2-1-50x38.jpg 50w, https:\/\/revistabicicleta.com\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/mashallah2-1-553x420.jpg 553w, https:\/\/revistabicicleta.com\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/mashallah2-1-80x60.jpg 80w, https:\/\/revistabicicleta.com\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/mashallah2-1-696x529.jpg 696w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\"><\/figure>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div>\u201cEis aqui o sentido profundo de minha rela\u00e7\u00e3o contigo,porque n\u00e3o existe, entre tu e eu, nem eu, nem tu\u201d.Mevlana Jalaluddin Rumi \u2013 poeta sufi persa do S\u00e9c. 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