Prefeito é atropelado por e-bike e proíbe bicicletas no centro histórico

Decisão adotada na cidade italiana de Como, localizada na região da Lombardia, reacende o debate: para garantir a segurança dos pedestres, é preciso proibir bicicletas ou fiscalizar comportamentos perigosos?

A cidade de Como, um dos destinos turísticos mais conhecidos do norte da Itália, decidiu proibir a circulação de bicicletas convencionais e elétricas em aproximadamente 30 ruas e praças de seu centro histórico.

Nas áreas atingidas pela nova regulamentação, os ciclistas deverão descer da bicicleta e seguir a pé, empurrando o veículo.

A medida ganhou repercussão depois que o prefeito Alessandro Rapinese admitiu que sua decisão foi influenciada por uma experiência pessoal: ele havia sido atropelado por uma bicicleta elétrica ao sair da sede da prefeitura.

“Eu sei como é ser atropelado por uma dessas bestas”, declarou Rapinese, ao justificar sua preocupação com a segurança dos pedestres.

O prefeito nega que a proibição seja uma forma de vingança e afirma que a prioridade é proteger quem circula a pé. A decisão, porém, provocou críticas de organizações ambientais, ciclistas e moradores da cidade.

O problema é a bicicleta ou o comportamento?

A segurança dos pedestres precisa estar acima de qualquer disputa. Calçadas, praças e áreas históricas devem ser espaços seguros, especialmente para crianças, idosos e pessoas com mobilidade reduzida.

Mas isso não significa que proibir todas as bicicletas seja a solução mais adequada.

A nova regra de Como coloca no mesmo grupo quem circula em alta velocidade com uma bicicleta elétrica e quem utiliza uma bicicleta convencional de maneira responsável. Em vez de identificar, fiscalizar e punir os comportamentos perigosos, a cidade optou por retirar todos os ciclistas dessas áreas.

É uma resposta ampla para um problema específico.

Se um motorista atropela um pedestre, não se proíbem automaticamente todos os automóveis. Criam-se limites de velocidade, melhora-se a sinalização, intensifica-se a fiscalização e responsabiliza-se quem desrespeita as regras.

Com a bicicleta, o princípio deveria ser o mesmo.

Bicicletas elétricas exigem novas regras

O crescimento das bicicletas elétricas trouxe novos desafios para as cidades. Alguns modelos alcançam velocidades elevadas e, quando conduzidos de maneira imprudente em áreas de grande circulação, podem representar riscos reais.

Também existe uma diferença importante entre uma bicicleta elétrica convencional, que apenas auxilia a pedalada, e veículos motorizados que se parecem com bicicletas, mas oferecem potência e velocidade muito superiores.

Cabe ao poder público estabelecer regras claras para cada categoria, determinar limites de velocidade e fiscalizar os locais onde há convivência entre ciclistas e pedestres.

Proibir indistintamente pode até produzir uma sensação imediata de segurança, mas não enfrenta a verdadeira origem do problema: a condução irresponsável e a ausência de fiscalização.

Uma decisão baseada na experiência pessoal

Governantes são pessoas e, naturalmente, também são influenciados pelas próprias experiências. No entanto, decisões públicas precisam ser construídas com base em dados, diálogo e análise técnica.

O atropelamento sofrido pelo prefeito merece atenção, mas não pode se transformar no principal fundamento para uma política que afeta milhares de moradores, trabalhadores e visitantes.

A medida já motivou a convocação de uma manifestação de ciclistas em Como. Entidades locais consideram injusto que todos sejam penalizados pelo comportamento de uma parcela dos usuários.

O episódio deixa uma reflexão que ultrapassa as ruas da cidade italiana: quando o problema está na maneira como alguém conduz um veículo, deve-se proibir o veículo ou responsabilizar quem o utiliza de forma perigosa?

Proteger os pedestres é indispensável. Organizar a circulação também. Mas cidades mais humanas não são construídas simplesmente retirando bicicletas de suas ruas.

São construídas com educação, fiscalização, infraestrutura e respeito entre todos os que compartilham o espaço urbano.

Segurança não deve significar proibição. Deve significar convivência responsável.

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